Eventos extremos climáticos custam caro ao Brasil: investimentos em mitigação e adaptação são cada vez mais urgentes

Introdução

Os brasileiros custam a acreditar que o Brasil é afetado por desastres naturais. Mas um estudo da UFSC divulgado na semana passada, que estimou em R$ 182 bilhões o prejuízo para o país causado pelos eventos e fenômenos meteorológicos extremos como secas, estiagens, inundações e enxurradas ocorridos nas últimas duas décadas, contribuiu para tornar mais tangível esta realidade. A pesquisa revela um dado ainda mais preocupante: a ocorrência cada vez mais frequente destes eventos. Na última década ocorreram 76% dos registros contabilizados e foram gastos 82% do custo total estimado. Os desastres e fenômenos meteorológicos extremos podem ser inequivocamente atribuídos às mudanças no clima provocadas pela ação do homem, sobretudo em decorrência do aumento significativo das emissões de carbono. Esta semana, o Peru enfrenta um dos piores desastres naturais das últimas décadas, com chuvas, enchentes e inundações provocadas pelo aquecimento das águas do Pacífico e um forte temporal causou morte e estragos no Rio Grande do Sul. Por isso, tão importante quanto questionar o termo “desastre natural” é reconhecer e identificar os esforços necessários à mitigação dos fatores de mudança climática, incluindo o abandono dos combustíveis fósseis e investimentos que garantam 100% de energia limpa. Sem esquecer a importância de se investir em adaptação, a fim de aumentar a resiliência às mudanças climáticas e aos impactos dos eventos extremos.

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Pontos-chave

Os desastres naturais, que se intensificam com as mudanças climáticas, têm impacto significativo na economia dos países. Eles revelam a importância e a premência de se investir em fontes de energia renovável e iniciativas de adaptação às mudanças climáticas. Um levantamento de economistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2015) mostrou que eventos extremos reduziram o PIB nacional em até 0,87% entre 2002 e 2012, equivalente ao custo de um Bolsa Família por ano, e afetaram, todos os anos, 1,1% da população brasileira. Para países em desenvolvimento, esses desastres tem sido fatais para suas economias. Em Moçambique, as perdas com o clima em 2011 foram superiores aos investimentos externos recebidos pelo país naquele ano.  Um estudo do Banco Mundial (2016) estimou que desastres naturais levam anualmente cerca de 26 milhões de pessoas à pobreza. Governos como o brasileiro, que com frequência justificam a exploração de energias sujas pela necessidade de reaquecimento da economia e criação de empregos, deveriam rever suas convicções à luz dos custos dos eventos extremos e alocar investimentos, por exemplo, para a geração de energia 100% renovável.


Os custos dos eventos extremos são com frequência subestimados e ficam a cada ano mais elevados,  pois o aquecimento global também torna cidades e populações progressivamente vulneráveis, agravando os impactos dos desastres.

No total, o impacto econômico dos desastres no mundo atingiu US$ 2,5 trilhões apenas nos 13 primeiros anos do século e, perdas no século XXI já custaram à economia global o equivalente ao PIB do Brasil. Mas segundo estudo da ONU (2013), a repercussão econômica de desastres está subestimada. O último estudo sobre os custos para o país em decorrência dos desastres naturais para o Brasil nas duas últimas décadas (1995-2014), por exemplo, levou em conta apenas os dados reportados pela Defesa Civil aos Estados e à União, que em geral só são feitas nos casos em que o município não consegue lidar com o desastre e precisa de ajuda financeira. Fatores como impactos dos desastres climatológicos na saúde no curto, médio e longo prazos, com frequência deixam de ser contabilizados neste tipo de levantamento. E a cada dia os custos de catástrofes se tornam maiores: o aumento do nível do mar que resulta do aquecimento global, por exemplo, agrava as inundações e os efeitos das tempestades.
Esforços para monetizar os impactos ou dimensionar os investimentos necessários em mitigação e adaptação são poderosos instrumentos para a tomada de decisão.

Estudos como o anunciado esta semana sobre o custo dos impactos são importantes, mas as estimativas de custo de implementação do plano de mitigação, para que o Brasil cumpra as metas de redução das emissões de carbono estabelecidas em Paris, também são necessárias. Um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgado em fevereiro estimou em 1% do PIB os custos da descarbonização da economia brasileira.  Alfredo Sirkis, Secretário Executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, enfatizou recentemente a importância da agenda econômica da descarbonização, diante de um cenário de possíveis retrocessos em relação ao Acordo de Paris, após a eleição de Trump. Com urgência maior a cada ano, as políticas econômica e energética do Brasil precisam levar em conta o custo das mudanças climáticas.